O Conflito Israelense-Palestino

No cenário tumultuado do conflito israelense-palestino, uma análise profunda e atenciosa se faz necessária para apontar as verdades não ditas por narrativas tendenciosas. A mídia, com seu poder de moldar a opinião pública, tem sido um elemento central na construção das percepções ao redor desse conflito complexo e altamente inflamável. Para alcançar uma compreensão ampla é preciso examinar as raízes deste ciclo de violência e injustiça.

  1. Breve história

O conflito israelense-palestino remonta ao final do século XIX e início do século XX, com o movimento sionista e a aspiração dos judeus por um Estado próprio na Palestina. Após a Primeira Guerra Mundial a Liga das Nações concedeu o mandato sobre a Palestina à Grã-Bretanha. Nesse período, a imigração judaica aumentou significativamente, levando a uma crescente tensão entre as comunidades judaica e árabe.

A partilha da Palestina em 1947 pela ONU, que visava criar dois estados independentes, Israel e Palestina, não foi aceita pelos países árabes vizinhos, que se juntaram e declararam guerra à Israel. Os judeus resistiram e venceram seus adversários. Na guerra, conquistaram 78% do antigo território palestino (22% a mais do que previa a partilha). Em 1949, firmou-se um primeiro acordo de paz entre os árabes e o Estado de Israel, já reconhecido pela comunidade internacional, inclusive o Brasil.

Porém, a paz e a convivência harmoniosa entre os povos da região não teve continuidade., tampouco o Estado Palestino não foi efetivamente criado. As tentativas de negociação de paz foram marcadas por altos e baixos. Os Acordos de Oslo em 1993, que visavam estabelecer um processo para a autonomia palestina, inicialmente gerou otimismo. No entanto, o avanço concreto foi lento e enfrentou inúmeras dificuldades, incluindo assentamentos israelenses em territórios palestinos e a persistente divergência sobre o status de Jerusalém. A figura de Yasser Arafat, líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), desempenhou um papel central nas negociações de paz. Porém, as negociações de paz estagnaram e as tensões continuaram a se agravar.

  1. 1 Direita – Netanyahu – Extrema-Direita

A influência da extrema-direita também desempenha um papel significativo na intensificação do conflito e no enfraquecimento das perspectivas de paz. Em 1977, o Likud, partido de centro-direita liderado por Menachem Begin, vence as eleições e forma o governo, marcando um deslocamento político para a direita. Nos anos 90, já sob liderança de Netanyahu, o Likud e outros partidos de direita ganham influência nas eleições. Nos anos 2000, há o crescimento de partidos nacionalistas e religiosos, que ganham influência e defendem uma postura mais dura em relação aos territórios ocupados.

 A ascensão de líderes políticos que promovem agendas nacionalistas e expansionistas contribui para uma atmosfera de intransigência e hostilidade. A demonização dos palestinos e a negação de seus direitos fundamentais têm sido táticas empregadas para consolidar o poder e manter uma base de apoio fervorosa. Promove, ainda, o apartheid aos palestinos. O sistema de discriminação institucionalizada é evidente na política israelense, e nas restrições de acesso a recursos básicos como água, energia, alimentos e o direito a terra.

  1. 2 Sobre o Hamas

O Hamas, uma sigla para Movimento de Resistência Islâmica, é uma organização política e militar palestina que surgiu na década de 1980 em resposta à ocupação israelense na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, e em reação à submissão da Autoridade Palestina. Embora muitos países e organizações classifiquem o Hamas como uma organização terrorista devido às suas atividades armadas e ataques contra Israel, é importante notar que a classificação do grupo não é unânime.

O Hamas também possui uma vertente política, e é uma força significativa na política palestina, controlando o governo da Faixa de Gaza desde 2007. Muitos países e analistas argumentam que rotular o Hamas exclusivamente como um grupo terrorista simplifica uma realidade complexa, pois desconsidera o apoio substancial que o grupo recebe de uma parte significativa da população palestina que o vê como uma resistência legítima contra a ocupação israelense.

O recente ataque perpetrado pelo grupo Hamas é, sem dúvida, condenável e representa um ato de violência que deve ser repudiado veementemente. No entanto, é crucial compreender que a raiz desse terrível episódio encontra-se na longa história de opressão e desespero que aflige os palestinos. Atribuir o atentado como um ato isolado e descontextualizado é um perigo, pois desconsidera a complexidade desse conflito.

2. O Conflito Até o Momento – 14/10/23

A guerra entre Israel e o Hamas chega ao oitavo dia neste sábado (14). Desde o dia 7, Israel lança continuamente mísseis contra a Faixa de Gaza, como resposta aos ataques terroristas organizados pelo Hamas. Mais de 1300 pessoas morreram. Além disso, Tel Aviv estima que outras cem foram sequestradas.

Logo após os ataques do Hamas, o primeiro-ministro de Israel, Netanyahu, declarou guerra ao grupo e disse que a facção pagará “um preço sem precedentes”. Desde então, Israel lança continuamente mísseis contra a Faixa de Gaza. O governo israelense diz mirar alvos terroristas, mas o Hamas atesta a morte de 1.900 palestinos, incluindo civis. Além dos disparos, Israel intensificou o bloqueio contra a Faixa de Gaza e, desde sábado, nada chega aos palestinos, incluindo comida e insumos médicos. Água e parte da eletricidade do território também foram cortadas. Israel busca, com a tática, pressionar o Hamas a liberar os reféns.

O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, afirmou que o cerco realizado por Israel em Gaza, com proibição de entrada de alimentos e água, e os ataques a civis são considerados crimes de guerra desde 1977 pela organização. Ele afirmou que existem “evidências claras” de crimes de guerra cometidos pelos dois lados. Türk disse estar “muito preocupado” com os últimos ataques de Israel a Gaza.

Na quinta (12), o Exército de Israel afirmou ter 35 batalhões na fronteira com Gaza prontos para invadir a região vizinha no momento em que houver aval do governo de Netanyahu. No mesmo dia, o governo israelense informou à ONU que os palestinos da Faixa de Gaza tinham 24 horas para saírem da porção norte do território. Ao todo, 2,3 milhões de pessoas vivem na Faixa de Gaza, sendo 1,1 milhão na parte norte do território.

O deslocamento forçado foi criticado pela comunidade internacional. Poucas horas depois do anúncio de Tel Aviv, as Nações Unidas disseram considerar “impossível que tal movimento ocorra sem consequências humanitárias devastadoras”.

Após o ultimato, o Exército de Israel reconheceu que a medida pode demorar. “Entendemos que isso tomará tempo”, afirmou o porta-voz almirante Daniel Hagari a repórteres, sugerindo que não há um prazo como anunciado anteriormente.

2.1 A guerra pode aumentar

Além do Hamas, Tel Aviv mantém tensões com o grupo extremista Hizbullah – cujas lideranças estão no Líbano, país na fronteira norte de Israel. O Hizbullah confirmou ter alvejado quatro posições do Exército israelense ao sul. Um jornalista da agência de notícias Reuters foi morto na ação. O número 2 do Hizbullah, xeique Naim Qassem, disse que o grupo está preparado e pronto para apoiar o Hamas no conflito. Por ora, porém, é improvável, que a entidade de fato entre na guerra.

O Irã, que tem uma das maiores forças armadas da região e apoia financeiramente o Hizbollah e o Hamas, também tem se pronunciado sobre o conflito, ainda que negando ter participado dos ataques terroristas.

Segundo o primeiro-ministro Netanyahu, “nossos inimigos apenas começaram a pagar o preço. Não vou detalhar o que virá a seguir, mas estou dizendo a vocês, é apenas o começo.”


Lamentamos profundamente a perda de vidas inocentes nesse conflito, seja de palestinos, israelenses ou de qualquer nacionalidade envolvida. Condenamos veementemente os atos de terrorismo perpetrados por grupos como o Hamas, que visam atingir indiscriminadamente a população civil. Da mesma forma, não podemos ignorar as táticas desproporcionais utilizadas por Israel em sua retaliação, o que também levanta sérias preocupações e configura violações ao direito internacional.

EUA, Reino Unido, França, Rússia e China, os cinco países têm assento permanente e com poder de veto, deveriam pressionar com mais veemência pelo cessar-fogo e pelo corredor humanitário. A Rússia aproveitou uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, nesta sexta-feira (13), para apresentar um projeto de resolução pedindo um cessar fogo humanitário em Gaza e a liberação de todos os reféns por parte do Hamas. O encontro, porém, terminou sem uma definição do órgão máximo da ONU.

Os reiterados crimes de guerra cometidos Israel também devem ser denunciados. O bloqueio total imposto à Gaza, o êxodo forçado de mais de um milhão de pessoas e o uso de armas ilegais (como o fósforo branco) evidenciam uma desproporcionalidade nas ações de Israel que comete diferentes crimes de guerra.

A comunidade internacional precisa intervir de forma efetiva na busca por uma paz duradoura, que promova a coexistência pacífica e o respeito mútuo entre os povos da região.