O Dia da Consciência Negra é um contraponto ao 13 de maio

A importância do Dia da Consciência Negra não é apenas social e histórica, mas também simbólica. Trata-se de uma data cujo valor se demonstra através da sua própria história, pautada, desde o início, pela resistência. Portanto, conhecer e entender as camadas que compõem o Dia da Consciência Negra é uma forma de valorizar a resistência de séculos do povo negro no Brasil.

Diante da importância e complexidade da data, o Sintect-DF preparou este breve histórico sobre o Dia da Consciência Negra. Vamos lá:

Até os anos 1970, dizia-se ao povo negro que seu maior herói, ou melhor, heroína era a princesa Isabel. Afinal, foi quem ela assinou, em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea, que levou à abolição da escravatura e cerca de 700 mil ex-escravizados à “liberdade”.

Sobre o heroísmo da princesa Isabel – e o isto vale para todo herói branco imposto, o apagamento da história negra e a sua releitura pelo ponto de vista do homem branco são mais uma das formas de subjugação racial de uma sociedade estruturalmente racista. Isso quer dizer que colocar uma mulher branca como heroína do povo preto é uma estratégia de dominação. Tal como dizer que a liberdade dos ex-escravizados foi concedida ao invés de conquistada.

A Lei Áurea, apesar de ser uma vitória dos movimentos abolicionistas da época, é uma das responsáveis pela dura realidade racial do país até os dias de hoje. Afinal, a lei não veio acompanhada de qualquer iniciativa governamental para integrar os ex-escravos à sociedade. Assim a comunidade negra manteve-se marginalizada, sem acesso à educação ou trabalho (digno, diga-se).

Em 1971, um grupo de jovens negros (Grupo Palmares) se reuniu no centro de Porto Alegre para pesquisar a luta dos seus antepassados e questionar a legitimidade do 13 de maio como referência de celebração do povo negro. Foi nesta pesquisa onde resgataram o nome de um verdadeiro herói negro, quase apagado pelo racismo histórico: Zumbi.

Em 20 de novembro de 1695, Zumbi de Palmares foi morto por bandeirantes liderados por Domingos Jorge Velho. Zumbi foi o líder do maior reduto de resistência à escravidão do período colonial e chegou a abrigar em torno de 30 mil pessoas. O quilombo resistiu aos ataques da coroa portuguesa por cerca de um século.

O dia 20 de novembro foi escolhido para destacar o protagonismo da luta dos ex-escravizados por liberdade e gerar reflexão para as questões raciais. A data surge como um contraponto ao 13 de maio já que é necessário romper com a falsa ideia de liberdade concedida, substituindo-a pela realidade, que foi a liberdade conquistada.

O Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial, em um congresso realizado em 1978, no contexto da Ditadura Militar Brasileira, elegeu a figura de Zumbi como um símbolo da luta e resistência dos negros escravizados no Brasil, bem como da luta por direitos que seus descendentes reivindicam.

Além de um contraponto à data “oficial”, a escolha do 20 de novembro como dia da Consciência Negra também representa uma forma de valorizar a cultura, a história e o papel político dos afro-brasileiros na sociedade. São elementos que determinam não só a identidade, mas as ações do movimento negro a partir de então.

Para marcar os 300 anos da morte de Zumbi, cerca de 30 mil pessoas se reúnem no dia 20 de novembro de 1995, em Brasília para denunciar a ausência de políticas públicas para a população negra. Diferentes cidades, entre elas o Rio de Janeiro, fazem do dia 20 de novembro feriado municipal. Atualmente, o Dia de Zumbi e da Consciência Negra é feriado em cinco estados e cerca de mil municípios.

Que este 20 de novembro aumente a consciência e a percepção da importância e dimensão da árdua história negra do Brasil.

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